quarta-feira, 20 de julho de 2016

Mil palavras



(Acervo alheio mesmo)

Dizem que uma imagem vale mais do que mil palavras, mas eu gosto muito das palavras e você prefere as imagens, então, que tenhamos os dois hoje. Sempre achei que eu não ligava muito para clichês, mas eu gosto de alguns, como datas e você nem liga para isso aparentemente. Eu tenho pânico de palco, medo de holofotes, sempre me escondo de multidões e você é um artista, o palco é sua terra de missão. Eu amo livros e filmes e trocaria facilmente uma tarde esportiva, da qual eu fugiria com toda certeza, por filmes com dois ou três amigos. E você... você gosta de futebol, de praia, de mergulho, sonha em praticar esportes radicais que me dão vertigem só de imaginar. Eu gosto de escrever textos enormes, os quais só você tem a incrível paciência de ler, mas me escreve duas linhas, porque esse é você. Eu extrapolo todos os limites, faço mil perguntas, vou procurando todas as brechas para ir conhecendo a sua história, em contrapartida, o máximo que te permiti entrar foi na minha sala de estar e até tentei te expulsar de lá. Eu não sei o motivo, nem sei bem como, mas sei que tentei ao máximo ser sua amiga e, quando entrei para a “lista dos cinco”, eu não sabia como lidar, então, tentei de várias formas, consciente, inconsciente, previamente e sem avisar... de todas as formas eu tentei sair de um lugar, de uma vida que eu já chamava de lar. No entanto, você insistentemente não me deixava sair e eu já nem sabia se eu queria, se eu deveria, se eu ainda estava me esforçando para sair. Passei quatro dias sem falar com você, sem trocar uma única palavra, desviando o caminho, tentando evitar e, com qualquer outra pessoa, teria funcionado. Eu fico quatro dias sem falar com a minha melhor amiga e “mal sei qual é o nome dela”. Porém, enquanto eu sabia a quantos dias eu não falava com você, era como se não houvesse diferença, era sempre o “primeiro dia”. Eu fiz uma lista de regras, as quais você fazia questão de quebrar. E fiz uma única promessa, a qual você fez questão de cumprir, mesmo quando eu queria que você quebrasse, então, eu tive de quebrar por minha própria conta. Eu queria saber a quanto tempo somos amigos ou a quantos dias nos falamos, mas parece sempre que são infinitos, um infinito ainda pequeno e, ao mesmo tempo, ainda tão frágil. E hoje, dia do amigo, dia de tantos amigos, dia dos amigos do dia a dia, eu sou apenas grata por tê-lo como amigo, por poder contar com sua amizade, por sua força de vontade. Acho, sim, que você aceita muitas coisas com facilidade e que me deixa muito livre para escolher o que é melhor para mim, porque, às vezes, eu só queria que tivesse mais importância e que você não me deixasse escolher entre partir ou ficar, queria que partir nunca fosse uma opção, queria que minhas escolhas fossem menos consideradas do que as suas lutas. De todo modo, eu ainda sou grata por você permanecer. Eu chego ao final dessa amizade com a certeza de que não sei absolutamente nada sobre você, mesmo que isso signifique saber mais do que a maioria das pessoas, ainda me parece muito pouco. Ainda existe um milhão de filmes para compartilhar, ainda existe um milhão de perguntas para serem feitas, ainda existe um milhão de preocupações e dores compartilhadas das quais eu não vou querer que você participe ou se preocupe, ainda existe um milhão de dias (talvez menos, porque a matemática pode não bater) para serem vividos e ainda existe tanta história para ser escrita. Um dia, eu espero não precisar fazer nenhuma pergunta para ouvir a sua partilha, é claro. E espero não precisar de nenhum pedido, cobrança, apelo para receber uma carta, uma de verdade. Talvez seja necessária uma partida, uma missão ou algo que aumente a saudade, porque a saudade favorece as palavras, então, eu ainda tenho esperanças. Enquanto isso, eu aceito cada pequeno e cada grande gesto como partes dessa história, como provas de amizade em uma amizade que é tão provada. Aceito cada parte da nossa amizade, porque é assim que ela é e também porque ainda não a entendo muito bem, eu não sei bem qual o propósito, qual a “duração”, qual o sentido de tudo isso. Aceito como presente, como graça e como vontade de Deus. Até o dia em que Ele nos der novos rumos, novas amizades. Provavelmente, não existirá um milhão de abraços, mas, enquanto houver apenas mais um e enquanto não for outro abraço de despedida, eu fico feliz por isso e isso basta. Basta porque sou feliz por poder dizer que temos uma amizade extraordinária. Agradeço por poder ter um abraço que me torna tão pequena, por poder ser eu mesma e me descobrir mais eu a cada dia. Sou grata porque nossa amizade não me divide, mas me ajuda a ser mais inteira, mais de Deus, menos minha. Eu agradeço ainda pela coragem de ser tal qual você é, do jeito que é, sendo assim tão único e sendo um lugar onde tantas pessoas se encontram, onde tantas pessoas querem habitar, onde tantas pessoas encontram um contraponto do mundo louco em que vivemos e encontram uma saída. Obrigada pela virtude da nossa amizade, pela graça de poder contar com você. E, nesse resvaloso rio chamado vida, só espero que nossos caminhos continuem se encontrando, espero que haja muitos abraços, espero que a vida aconteça, mas não nos separe para sempre. São apenas mil palavras, em ordem aleatória, em um texto ininterrupto como eu espero que seja sempre a nossa amizade. Que não nos faltem palavras, sorrisos e abraços. E que seja sempre dia de celebrar a nossa amizade. Há tanto ainda por dizer... Mas há tanto ainda por calar, não é mesmo? Então, digo apenas obrigada e, timidamente, um “amo você”, sem malícias. Até breve.

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Viktor Shklovsky


“She is the only island for you in your life. From her there is no turning back for you. Only around her does the sea have color.”
Viktor Shklovsky, Zoo or Letters Not About Love

imagem de: <livewhatyoulovekris.wordpress.com>



Hoje, eu acordei no meio da madrugada, fui despertada de um sono que perdeu a importância. Olhe para o lado e vi uma luz irradiante que me banhava, era tão intensa que atravessa meus sentidos, parecia ganhar um frescor, um aroma, uma delicadeza, era quase um toque. De tão agradável ao olhar, tirou-me o sono, os pensamentos e tomou-me para ela. Olhando aquela luz, que vinha de fora do meu quarto, mas parecia querer invadir toda a minha vida, eu me perdia em um outro mundo, em algo totalmente irreal.

Aquela lua, aquele brilho, aquela sensação... alguém me roubava de mim e, por um instante, não existia mais dor, não existiam mais preocupações e nem mesmo cansaço, não existia nada além de mim e daquela lua. E uma estranha alegria tomou conta de mim. Pela primeira vez em muito tempo, eu não queria outra coisa, além de estar aconchegada entre as cobertas, à luz daquele brilho, apenas sentindo aquela gentileza da vida.

De repente, eu me sentia abençoada. Sentia-me presenteada, sentia que alguém me despertava para me fazer uma deliciosa surpresa. Naquele silêncio, nada precisava ser dito, mas eu sentia tanta gratidão por estar ali. Então, adormeci e, ao despertar, sem saber se tinha sido um sonho ou não, voltando para vida como quem volta de uma viagem, vi que meus pensamentos voltavam à ordem “natural”, e que aquele brilho queria se tornar apenas mais uma lembrança.

Porém, hoje, não. Porque existiu essa força tão extraordinária que me pode roubar de mim e me trazer de volta, porque houve uma pausa no tempo e um momento de rara paz, porque nada poderia explicar essa tranquilidade que embalou minha alma e porque eu quero de novo essa doce sensação, hoje, não falarei de nada que remeta àquilo que me tira a leveza. Eu preciso da leveza de Alya e não da densidade de Victor. Por hora, são palavras soltas, frases prontas, sobre a vida e não sobre tudo que não pode ser expresso.

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Inocente vestal

Foto: http://www.revistadehistoria.com.br/secao/cine-historia/brilhos-e-sombras-das-mentes-com-lembrancas



"I could die right now, I'm just … happy. I've never felt that before. I'm just exactly where I want to be". 

                            (Eternal Sunshine of the Spotless Mind, EUA, 2004)





Feliz é o destino da Inocente Vestal

Esquecendo-se do mundo e sendo por ele esquecida

Brilho eterno de uma mente sem lembranças

Toda prece é ouvida, toda graça se alcança

                                 (Alexander Pope)



"(...) Sou a vestal de um segredo que não sei mais qual foi. E sirvo ao perigo esquecido. Soube o que não pude entender, minha boca ficou selada, e só me restaram os fragmentos incompreensíveis de um ritual. Embora pela primeira vez eu sinta que meu esquecimento esteja enfim ao nível do mundo. Ah, e nem ao menos quero que me seja explicado aquilo que para ser explicado teria que sair de si mesmo. Não quero que me seja explicado o que de novo precisaria da validação humana para ser interpretado".
                                                                                                        (Clarice Lispector)

Um abraço, um céu e uma história

Foto: Acervo pessoal.

Respire fundo. Mantenha a calma. Você não está só. Então, seguro sua mão bem devagar. Sem pressa. Qualquer movimento pode te assustar. Um toque leve. Uma brisa. Uma sutileza.

Quando você fica assim, vai rápido demais. Sua dor, sua raiva, sua força, tudo vem à tona. E eu preciso te fazer desacelerar. Eu preciso te desequilibrar. Preciso da sua fraqueza. Só assim eu posso quebrar estas barreiras, estes muros que te cercam.

Eu preciso que você descanse as suas lágrimas em mim. Preciso que me deixe te envolver nos meus braços e te conduzir, como em uma dança. Preciso tirar a sua capa de super-heroína. Você não precisa dela. Eu vejo em você uma mulher.

Não espero nada de você. Dei tudo por você. E o seu menor gesto já me torna grato, porque eu te amo. Estendo uma túnica, convido-te a se deitar e apenas apreciar o céu que te cobre. 

Aqui, você é única. Não existe ontem, hoje ou amanhã. Apenas o para sempre. Apenas esse instante.

terça-feira, 5 de abril de 2016

Naïve

                      http://www.academia.org.br/academia/fundacao
Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:
"Navegar é preciso; viver não é preciso."

Quero para mim o espírito desta frase, transformada
A forma para a casar com o que eu sou: Viver não
É necessário; o que é necessário é criar.
                                    (Fernando Pessoa)

Meu amor, a vida é um poema,
no qual não faço a escansão.
Não ligo para a métrica,
não conto os versos,
não me importam as rimas..

Meu amor, a vida é um poema 
que não pertence a nenhuma escola
e a não é reconhecido nos cânones.
Não há críticos aptos a interpretá-lo,
não se encontram referências e nem fontes.

 Meu amor, a vida é um poema
que leio desatenta para não me perder
nos seus verso antigos de rara beleza,
nas suas estrofes novas, sempre a recomeçar.

Meu amor, a vida é um poema  
em que seu poeta finge, chora, comove, ama.
Um poema feito às pressas
só para falar de você.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

"Mas tu és mesmo bobo, Bobo"

http://pboucolor.blogspot.com.br/2011_06_01_archive.html


É quase impossível evitar o excesso de amor que um bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo.


                   (Clarice Lispector. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.)

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Eu sou o melhor no que faço,

mas o que faço não é nada bonito


Meu pai me chama de Wolverine. É o nosso apelido secreto.
          Não tenho o queixo quadrado e a baixa estatura do desenho da Marvel Comics. Muito menos a suíça e o cabelo alvoroçado do ator Hugh Jackman, que interpreta o herói no cinema. A referência física não contribui para nossas semelhanças.
Ele me compara ao personagem pelo alto poder de cicatrização. Eu me desespero e logo ressuscito, eu caio e logo levanto.
Não morro de uma única vez. Não desisto. Não me entrego mesmo que não veja a saída. Quando não há porta, eu espero no escuro até ser a porta.
A ansiedade que me enerva acaba por aumentar minha vontade de ver novo a luz.
Tenho fúria de viver.
Não há perda que seja total. Alguém pode me machucar terrivelmente, mas não me leva. Posso permanecer sequelado, mas seu cavar a terra por dentro da terra. Penso nos filhos, penso nos amigos, penso na literatura e sigo adiante. Cambalear ainda é caminhar. A chuva lava minha ferida e o vento seco.
A carne da memória se recompõe de algum jeito. Talvez seja um excesso de sofrimento na infância que me preparou para o pior no futuro.
Eu sobrevivi a tanta coisa.
Sobrevivi ao bullying na escola, ao pessoal me chamando de ET e monstro todo dia durante o ensino fundamental.
Sobrevivi à resistência dos médicos que juravam que tinha algum retardo mental.
Sobrevivi à desistência dos professores com meu desempenho.
Sobrevivi à traição de amigos.
Sobrevivi às drogas para ser aceito na roda dos adultos.
Sobrevivi à briga de rua.
Sobrevivi a uma tentativa de suicídio na adolescência.
Sobrevivi a enterros de jovens colegas.
Sobrevivi a três acidentes de carro.
Sobrevivi a quatro separações.
Sobrevivi ao vício do cigarro.
Sobrevivi a dois assaltos a mão armada.
Sobrevivi a várias demissões.
Sobrevivi ao distanciamento de meus dois irmãos amados.
Sobrevivi, vou sobreviver, mesmo que não acredite na hora.
Só não entendia onde meu pai enxergava as garras retráteis de Logan.
-E as garras das mãos, pai?
-São as palavras, meu filho. Você se defende com a linguagem ou se agarra nela pata não morrer.

(Fabrício Carpinejar)