mas o que faço não é nada bonito
Meu pai me chama de Wolverine. É o nosso apelido
secreto.
Não tenho o
queixo quadrado e a baixa estatura do desenho da Marvel Comics. Muito menos a
suíça e o cabelo alvoroçado do ator Hugh Jackman, que interpreta o herói no
cinema. A referência física não contribui para nossas semelhanças.
Ele me compara ao personagem pelo alto poder de
cicatrização. Eu me desespero e logo ressuscito, eu caio e logo levanto.
Não morro de uma única vez. Não desisto. Não me
entrego mesmo que não veja a saída. Quando não há porta, eu espero no escuro
até ser a porta.
A ansiedade que me enerva acaba por aumentar minha
vontade de ver novo a luz.
Tenho fúria de viver.
Não há perda que seja total. Alguém pode me
machucar terrivelmente, mas não me leva. Posso permanecer sequelado, mas seu
cavar a terra por dentro da terra. Penso nos filhos, penso nos amigos, penso na
literatura e sigo adiante. Cambalear ainda é caminhar. A chuva lava minha
ferida e o vento seco.
A carne da memória se recompõe de algum jeito. Talvez
seja um excesso de sofrimento na infância que me preparou para o pior no futuro.
Eu sobrevivi a tanta coisa.
Sobrevivi ao bullying na escola, ao pessoal me
chamando de ET e monstro todo dia durante o ensino fundamental.
Sobrevivi à resistência dos médicos que juravam que
tinha algum retardo mental.
Sobrevivi à desistência dos professores com meu
desempenho.
Sobrevivi à traição de amigos.
Sobrevivi às drogas para ser aceito na roda dos
adultos.
Sobrevivi à briga de rua.
Sobrevivi a uma tentativa de suicídio na
adolescência.
Sobrevivi a enterros de jovens colegas.
Sobrevivi a três acidentes de carro.
Sobrevivi a quatro separações.
Sobrevivi ao vício do cigarro.
Sobrevivi a dois assaltos a mão armada.
Sobrevivi a várias demissões.
Sobrevivi ao distanciamento de meus dois irmãos
amados.
Sobrevivi, vou sobreviver, mesmo que não acredite
na hora.
Só não entendia onde meu pai enxergava as garras
retráteis de Logan.
-E as garras das mãos, pai?
-São as palavras, meu filho. Você se defende com
a linguagem ou se agarra nela pata não morrer.
(Fabrício Carpinejar)

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